Página 1 de Curtas e Mínimas, por Ione Mattos

(I)
Existem dois modos essenciais (mas não únicos) de se habitar uma palavra: um é ressoar seu som em harmonia com pensamentos, atitudes e obras; o outro é entregar-se a ela, sendo seu sopro em movimento. A qualidade de cada uma delas determina seu modo de ser habitada. Ser é sopro em movimento; existir é ressonância.
(II)
Para incorporar meu tom, fui ser Ione na vida, significando manter meu sopro em pé. Um escritor chamado Kaka Werá Jecupé, índio brasileiro, escreveu isso. Eu li, e vi que tinha sabedoria.
(III)
Há palavras que podem ser habitadas com muita simplicidade. Vive-se nelas com comodidade e gosto. Já são criadas com habite-se. Outras, não. Necessitam reparos para receber gente, e quase sempre permanecem vazias. Eu, por exemplo, é uma palavra quase sempre habitada (mesmo não inteiramente conhecida). Nós, ao contrário, esvazia-se com muita facilidade: tenho visto várias em ruínas.
(IV)
Amor. Essa tem uma arquitetura tão para todos os gostos, que se podia esperar estivesse sempre habitada. Ao contrário, seus moradores ficam tão constrangidos com tal absoluta liberdade, que lhe vão destruindo a estrutura, causando desabamentos, até que fique impronunciável. Na verdade, eu mesma não conheço ninguém que tenha vivido nela com o desprendimento de transitar por todos os cômodos, e sem cerimônias saborear-lhe os comprometimentos.
(V)
Falar a partir do meu próprio som, idioma da minha palavra habitada, é como entoar a experiência. A experiência é pura composição. Eu, artesã.